A natureza como cura, por Fernanda Gianinni

A natureza como cura, por Fernanda Gianinni

Distanciamento homem e natureza

Gostaria de trazer, primeiramente, a reflexão da origem do distanciamento homem e natureza. 

Podemos observar como não só como deixamos de estar perto fisicamente dos ambientes naturais, mas também a forma como modificamos o pensamento do que é natureza conceitualmente. Antes, para mim, a separação homem e natureza relacionava-se especialmente com ida do homem para a cidade, com a Revolução Industrial.

 Pintura: Pieter Brueghel el Joven: Los segadores (1623)

Só que, olhando mais atentamente para descrições do uso da terra em períodos anteriores ao industrial, vemos essa desconexão vinda de uma relação especialmente ligada às classes sociais as quais trabalhavam com a terra e o plantio.

O conceito de natureza separada do homem nasce quando ela pôde ser contemplada, desfrutada e separada das áreas de plantio, essas cultivadas por escravos. 

Ou seja, as áreas de floresta passam a ser observadas e descritas por aqueles que podiam desfrutar do ócio por serem donos de terras, e suficientemente influentes para publicar seus textos. Pode-se dizer que é a partir daí que surge, em contraposição, a desvalorização do contato manual com a terra.

É importante entendermos que, esse distanciamento que todos sofremos, até hoje, de alguma forma, acaba tornando natural que concordemos com o uso de agrotóxicos nas plantações, por exemplo. 

A pílula de comida dos Jetsons parece cada vez mais próxima (como no caso da ração humana do governo de sp), vemos o homem distanciando-se da natureza até em sua relação mais necessária com ela: a comida. Muitas vezes não sabemos de onde vem a carne que comemos e que a carne, legumes e verduras não nascem embalada em plástico no supermercado.

E assim, conseguimos entender também como a mudança da legislação em relação às áreas de preservação, o crescente desmatamento da Amazônia, e o aumento das queimadas podem passar como algo exagerado e sem importância para alguns.

Para essas pessoas, são situações distantes fisicamente e parecem não influenciar nas vidas daqueles que moram fora dessas áreas. Porém, pelo contrário, influencia muito em nossas vidas, nas chuvas, na temperatura e no fornecimento de água das grandes cidades (além de todas as perdas diretas no bioma).

No video abaixo, Satish Kumar, ex-monge indiano, fala sobre a riqueza de termos a natureza e, principalmente, de sermos parte dela. 

“Natureza significa nascimento “natura, natal, native. Nós todos nascemos e então, também somos natureza. Por isso, não há separação, não tem desconexão entre homem e natureza. O que fazemos com a natureza, fazemos com nós mesmos” 


 

Esse distanciamento não é saudável para o homem (poderia dizer que para o planeta também, mas isso entra na discussão sobre a Terra estar em constante mudança e o fato de nós só estarmos vivos devido às condições ambientais que existem hoje. Caso isso mude, nós não sobreviveremos, a Terra sim). 

O resultado disso em nós? Vemos diariamente um número alarmante de pessoas fisicamente e mentalmente doentes. Por isso, a importância de nos reaproximarmos do que faz parte de nós.

Efeitos da nossa reaproximação com a natureza

Na tentativa de entender a efetividade das terapias com a natureza, fui compreender os efeitos do convívio com a natureza no nosso cérebro, busquei o livro: "Your Brain on Nature: The Science of Nature’s Influence on Your Health, Happiness, and Vitality”, dos autores Eva M. Selhub e Alan C. Logan.

Além de muitos exemplos de tratamentos e estudos da influência do meio natural no nosso corpo, encontrei o conceito do biólogo Edward O. Wilson, da Universidade de Harvard, denominado “biofilia”, já antes definida no dicionário médico em 1900 como “the instinct for self-preservation or the instinctual drive to stay alive”. 

Esse conceito baseia-se na relação do homem com a natureza, tratando do seu desejo de afiliar-se com outras formas de vida, como uma necessidade intrínseca para seu desenvolvimento. 

O dicionário Michaelis ainda estende para uma segunda definição, a de “instinto de autopreservação”, que está diretamente ligado à constatação do quanto podemos estar mais confortáveis com a presença dos desafios trazidos pela natureza, englobando criatividade, movimentação física e momentos de solidão para meditação, do que com objetos prontos, industrializados, os quais não exploram nosso potencial de criar novas soluções e de sentir-se útil.

 Em outro livro, também encontrei muitas explicações sobre os benefícios desse contato: 

  “Descansar nos galhos altos talvez oferecesse um rápido relaxamento para a descarga de adrenalina de ser uma presa em potencial.
- Biologicamente, não mudamos. Ainda estamos programados para lutar ou fugir de grandes animais. Do ponto de vista genético, na essência, somos as mesmas criaturas que éramos. Ainda somos caçadores e coletores.” (“A última criança na natureza: resgatando nossas crianças do transtorno do déficit de natureza” Richard Louv, editora Aquariana, 2016)

Já repararam como geralmente imaginamos uma paisagem natural quando tentamos relaxar, ou como procuram lugares com paisagens naturais para passar as férias?

Richard Louv escreve sobre estudos que conectam o brincar ao ar livre, com melhores resultados em testes de coordenação motora. Isso é explicado pelo fato das crianças terem maiores desafios em áreas naturais, do que em pisos lisos de playgrounds. 

Hoje, o homem tem seus sentidos afunilados devido ao excesso de estímulo à visão. As telas dos celulares, computadores e televisões comprovam essa mudança. Em contrapartida a esse estímulo único, a natureza desperta e acentua todos os demais sentidos, desenvolvendo habilidades de sobrevivência, mesmo em momentos de lazer, criando uma confiança instintiva 

Além disso, diversos estudos comprovam índices menores de transtornos de comportamento, ansiedade e depressão em crianças residentes em áreas com mais espaços naturais.

Ser natureza é estar em contato consigo mesmo. Por esses e tantos outros motivos, é importante que nós observemos, não só na infância, fenômenos, padrões na natureza, os fluxos, ciclos, vivenciando as áreas naturais para que sejam inspiração para novas soluções de trabalho, cuidado ou de questões internas nossas.

Vamos lá! Conheçam os parques próximos à sua casa, visite a Amazônia, admire, observe com o olhar, com as mãos e pés, ouvidos, nariz... entendendo o papel de cada ser vivo no funcionamento do ecossistema em que estamos inseridos.

 


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