Encontro Raízes - As riquezas do Cerrado brasileiro

Encontro Raízes - As riquezas do Cerrado brasileiro

Tivemos a oportunidade de participar do Encontro RAÍZES: 4º Grande Encontro de Raizeiros, Parteiras, Benzedeiras e Pajés na Chapada dos Veadeiros, entre dos dias 16 e 19 de maio. Nosso primeiro contato foi o benzimento feito no Parque de São Jorge, na foto abaixo:

O RAÍZES é realizado pela mobilização voluntária de seus organizadores, que assumiram a missão de promover um encontro protagonizado pelos próprios detentores dos saberes tradicionais, que chamamos de "mestres". São eles(as): Raizeiros(as), Parteiras(os), Benzedeiras e Benzedores, Rezadeiras(os) e Pajés, vindos de diversas partes do Brasil e até de fora, mas principalmente da própria Chapada goiana. Representantes de diversas comunidades e povos, realizando de forma gratuita e espontânea trocas de saberes e fazeres importantes entre os povos e gerações.

Diversas oficinas de remédios caseiros aconteceram no final de semana, ao mesmo tempo, então escolhemos as seguintes:

Pomada dos Milagres - com Josué ( Teresina-GO) 

Carismático e atencioso Seu Josué ensinou uma pomada que serve para diversos problemas no corpo, como: sarar a úlcera.

Fez o passo a passo conosco e a receita levou a erva Martruz, cúrcuma, cera de abelha e babosa. Indicou também o livro Medicamentos do Cerrado, autor Ronaldo Abraão.

 

Roda de interpretação dos sonhos, com o Pajé Alvaro Tukano

Começou contando um pouco do seu início de vida, no qual se alfabetizou em latim e em português. Brigou com a igreja católica, pois tudo que não era da igreja era de satanás.  No seu povo quando alguém está menstruada ela precisa se resguardar para não pegar doenças “invisíveis” e não pode tomar banho em Cachoeira, pq o sangue da menstruação irritam os espíritos. O que nos faz refletir sobre o mundo de vivemos e saber lidar com as diferenças, de forma positiva.

Ressaltou e valorizou a prática, o contato com as pessoas. E afirmoou a potencia desse Encontro Raízes na prática. Na teoria se faz teste de mestrado na academia, brincou o Pajé. A escola do índio não tem nota para passar de ano, que não cria, portanto, as classes sociais. Fazem isso para nivelar o pensamento, para ajudar mutuamente. 

Criticou a chegada da religião cristã para nossas filhas - como ele tratou todos os envolvidos na roda, que saem da comunidade indígena para o hospital para fazerem seus partos com cirurgia. Reclamou da perda de tradicão e que agora é "tudo hospital"

Muitos falaram sobre sonhos e magicamente o Pajé os interpretou na roda.

 

Encerrou com o que seu pai, de 113 anos, diz sobre o cenário atual, em que a indústria tem "muita grana", mas não tem planta medicinal. Além disso ele deu a voz ao médico Evando Queiroz, que trabalha junto com índios e raizeiros locais em busca de uma melhor cura para todos, inclusive o planeta, concluindo que: Juntos nós podemos ser felizes.

 

Roda de conversa com Parteiras tradicionais

Essa roda foi emocionante! Como é bom sair da cidade e conhecer o dia a dia de mulheres que dão a luz a milhares de mulheres, de uma forma altamente natural e com diversas dificuldades no caminho. Lembrou que elas cuidam de duas vidas, a da mãe e do bebê.

 

 

A primeira parteira relatou que começou a acompanhar os partos com a sua avó aos 13 anos de idade. 

No dia do parto existem várias ervas para sarar a dor, como a folha de pequi e a entre casca de baru. 

Tem também o chá de alho com cebola pra a mãe esquentar.

Pimenta, café sem doce. Isso esquenta a dor.

Antigamente existia um kit para as parteiras, que constituis em equipamentos básicos para a atividade. De 6,7 anos para trás não existe mais. A maioria dessas mulheres não recebem nada pelo parto e são  analfabetas. As poucas ganham em torno de 120 reais, já o médico ganha 600 reais nas suas cidades. Usavam desenhos e escrituras com informações dos partos e enviavam para a secretaria de saúde, mas hoje em dia não há sequer registro. 

Somando a precariedade das comunidades carentes, com o abandono público e a política massiva sobre o parto em hospitais, o cenário das parteiras é de fragilidade a cada dia no Brasil.

Movimento curador adote uma parteira foi apresentado. Nada mais é do que você por uma mochila nas costas e acompanhar uma parteira. Elas querem ensinar. Não precisa fazer 4 anos de medicina pra cortar.  O acompanhamento consiste em tarefas que muitas de nós não fazemos ideia, como até mesmo preparar café para a parteira, que fica horas no trabalho, sem sequer um auxílio desses. Tendo também as funções das ervas pra colher, preparo das garrafadas, toalha pra lavar.

Mas lembrem-se: Pra ser parteira mesmo tem muito chão, muita humanidade, diz a aprendiz da roda.

Com é a relação com o hospital todas as parteiras da roda relataram não ser boa. A maioria delas, quando levam ao hospital não acompanham mais as mães e os médicos tratam, no geral,  com desrespeito. Não existe nenhuma receptividade. Às vezes perdem a criança e responsabilizam as parteiras.

Cada vez mais a gente vê o afastamento do estado. Falta de autonomia, auto gestao comunitária. A humanização do parto só pra quem pode pagar. Que chega a 8 mil reais.

A primeira impressão da vida é essencial. Adote uma parteira :)

A página do Facebook para acompanhar o trabalho é: Na luz do partejar página do FB 

 

Identificação de plantas medicinais do Cerrado - Com doutor Evando Queiroz

Foi uma experiência riquíssima percorrer menos de 1 km com o médico Evando e identificar mais de 10 plantas medicinais, presentes somente no Cerrado. É impressionante a biodiversidade e ao mesmo tempo a dificuldade do homem em reproduzir certas espécies dessa região. Dr. Evando comentou que por existir essa dificuldade de reprodução a prescrição de algumas plantas pode correr risco de extinção. Aproveitou para dizer sobre o respeito que devemos ter com o meio ambiente e, principalmente com as reservas indígenas do nosso país. Pois lá se protegem também nossas plantas, ameaçadas de extinção,devido a queimadas e coletas ilegais. 

Perguntei a ele sobre o que ele acha da visão médica com a nossa, de prescrever certos chás e utilizar-se da medicina popular. Ele respondeu rindo:

“O médico quando se forma acha que sabe tudo. Quando entra na faculdade tem certeza.” Nós não sabemos de nada. Somos eternos aprendizes. 

Dentre as plantas observamos:

Douradão - Efeito corticoide, com folha bem dura, podendo estalar com os dedos nela e ecoar um som alto.

Canela de Velho -faz seu chá

Pimenta Macaco - Muito usada em temperos, acelera o metabolismo

Tiborna - Leite da folha, quando quebra, é utilizado para gastrite. Pesquisas apontam seu uso no câncer no estômago.

Pau Doce (Volquizia tuconorum) - Utilizada pelo exército como alimento de sobrevivência. Sua casca é doce. Combate doença de Chagas na fase aguda e tem efeito arritmico.

Assa Peixe - Bom para tratamento de problemas respiratórios, principalmente processos alérgicos. 

Barbatimão - Antigamente curtiam o couro com seu sumo. Essa arvore possui tâninos, que têm ligações irreversíveis com a proteína, sendo excelente contra infecção de bactérias e fungos, sobretudo no âmbito ginecológico. Sua casca faz-se o banho de acento. Essa é uma árvore que encontram extrema dificuldade em reproduzi-la.

Entrecasca do coco da Bahia - Ideal para curar hemorragia ultra uterina. 1 colher de sopa. Coa e toma aos poucos. 

Jatobá - Em um estudo realizado com 300 pacientes, o doutor Evando presenciou a melhora em homem com problemas na próstata. Mais que isso: ele ensinou aos pacientes como fazia o preparo com o Jatobá. Em 6 meses estavam todos curados. São 30 minutos macerando a casca,e cobre com álcool 70. Agita por uma semana e coa. Manter numa garrafa âmbar, livre do sol. Ingerir 1 gota por kilo. 2 vezes ao dia. Obviamente isto é uma breve explicação do processo todo. 

Lobeira - Ótima para tosse, úlcera e pacientes com câncer estomacal. 

Guiné da Mata atlântica -Bom para o reumatismo.  Bastante utilizado na veterinária.

Pé de Perdiz - garrafada para mulher engravidar

 

Mão de Deus - Margaridão - bom para dependência química, principalmente cocaína. Faz-se a tintura da flor, por 15 dias chacoalhando. 

 

Oficina do Cone Hindu

Função energética, limpeza dos pensamentos e alinhamento dos Chakras.

Um cone feito de tecido de algodão, lavado e passado, é embebido numa mistura aquecida de cera de abelha, parafina e resina de Jatobá. 100 gramas de cada. O Jatobá dá em setembro e é dele seco, não do líquido branco encontrado em pontos comerciais naturais.

Posiciona a ponta menor dele o orifício dos ouvidos e a chama é acesa na ponta oposta. A fumaça entra e aquece os meridianos, que consequentemente alivia a dor. 

Medicina popular utiliza-se frequentemente em casos de otite, enxaqueca e labirintite. Recomenda-se uma vez por ano para limpeza, mas se estiver com dor pode fazer 1 vez por semana. Em crianças pode aplicar enquanto ela dorme, mas no geral elas depois que sentem o resultado pedem. 

Importante nao pegar friagem após a aplicação. Vale ressaltar que é contra indicado logo após a cirurgia. 

 

Oficina de Babosa - Dra. Livia

A médica e proprietária da linha de cosméticos LiveAloe mediou a oficina da Aloe vera barbatensis, uma das 200 espécies encontradas.

Sobre a proibição do consumo via oral pela Anvisa, a Dra Livia explicou que eles alegam que pode haver resquícios do principio ativo que a planta solta, chamado: Antraquinona, que é altamente laxativo e em grande quantidade prejudica a função renal. Entretanto ela comentou ao leque enorme de produtos para o consumo da Aloe vera em diversos países. E que hoje, cientificamente, já pode-se rastrear e controlar sua pureza. 

Dicas de colheita e preparo foram passadas, mas você pode conferir no nosso post só sobre a Babosa

Muito interessante foi sobre a abordagem ginecológica, que seu uso é positivo em casos de corrimento e candidíase. Basta introduzir o gel da babosa, com cerca de 5 cm dentro da vagina, uma vez por semana, durante 5 a 10 dias, antes de dormir. Vale ressaltar que isso foi numa roda de conversa, com diversas interferências. O ideal é que você busque pesquisar sobre isso e entre em contato com profissionais da área.

Conclusões:

Foi extremamente enriquecedor e importante esse encontro. Os raizeiros, parteiras, benzedeiras e Pajés possui um conhecimento vasto não só sobre plantas medicinais, mas carregam uma visão sobre a comunidade onde vivem. Conversam e estão perto das pessoas, olham não como pacientes, mas para seres vivos. E nesse encontro ouvimos a fragilidade do Estado e ao mesmo tempo a resistência deles em permanecer nas suas receitas e culturas dos antepassados.

Interessante também que o evento é totalmente organizado por doações e contribuições voluntárias.

Além disso percebemos como o cerrado é uma farmácia viva, com diversos usus já em prática. E que devemos protegê-lo, como bem disse o médico Evando.

Recomendamos fortemente ano que vem vocês irem para o quinto Encontro Raízes. Sigam eles no instagram. As fotos são bem mais lindas que as nossas :)

 

 


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1 comentário
  • Bacaníssimo! Gostei muito de conhecer este Encontro e toda a sua potencialidade de aprendizado, troca e valorização do Cerrado e das culturas locais. Obrigada por dividirem conosco e nos incentivarem a conhecer e também a ajudar na divulgação!

    Juliana em

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